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Indústria localizada em Camargo, no norte gaúcho, tem capacidade para 108 milhões de litros por ano
Indústria localizada em Camargo, no norte gaúcho, tem capacidade para 108 milhões de litros por ano - Foto: Diogo Zanata

Energia extra para usinas de biodiesel

Novo aumento no percentual adicionado ao diesel, a partir deste mês, ajudará a diminuir a capacidade ociosa das usinas, hoje superior a 50%

Prestes a completar uma década, o balanço do Programa Nacional de Uso e Produção de Biodiesel mostra o Rio Grande do Sul como Estado mais beneficiado pela iniciativa lançada em dezembro de 2004. Desde que o combustível renovável passou a ser produzido, as unidades gaúchas responderam por 28% dos 16,1 bilhões de litros que saíram das usinas do país, revela o levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Óleo Vegetal (Abiove).

Os dados incluem o intervalo de 2006 a agosto deste ano, período em que há preços de comercialização divulgados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). O volume, de acordo com cálculos da Abiove, gerou uma receita de R$ 41 bilhões às indústrias brasileiras. Somente no Estado, o valor injetado seria de pelo menos R$ 10 bilhões.

A aproximação do aniversário do programa, considerado bem-sucedido apesar de ter deixado pelo caminho alguns princípios que nortearam sua criação, também coincide com uma nova fase. No início do mês, começou a valer a mistura de 7% de biodiesel no diesel de origem fóssil usado em veículos como ônibus e caminhões. O chamado B7 substitui o B6, válido desde julho deste ano, que por sua vez entrou no lugar do B5, em vigor desde 2010.

A maior adição de biodiesel ao diesel ajudará a diminuir a capacidade ociosa das usinas brasileiras, aumentando a produção e auxiliando no equilíbrio da equação financeira do negócio. O longo período com o percentual de mistura estagnado cobrou seu preço, admite o assessor econômico da Abiove, Leonardo Zilio, também responsável pela área de biodiesel da entidade.

O setor passou por um período crítico nos últimos dois anos, com fechamento de algumas usinas. A utilização da capacidade instalada era em torno de 40% com o B5 e passa a ser de 55% com o B7 — avalia Zilio, que mesmo assim enxerga mais acertos do que erros na primeira década do biodiesel brasileiro. Com a maior adição, o volume de biodisel produzido no país deve passar de 3,45 bilhões de litros neste ano para 4,2 bilhões em 2015.

Mistura obrigatória teve início com 2%, em 2008

Entre os pilares imaginados para o programa, naufragaram as premissas de que poderia ser baseado em opções alternativas à soja, como mamona e palma, e ser instrumento de desenvolvimento regional, especialmente do Nordeste. Alcançou, no entanto, o objetivo de estimular a geração de energia mais limpa, com reflexos ambientais positivos e benefícios para quem compra o insumo da agricultura familiar.

O programa deu certo porque havia matéria-prima (soja). Se ficássemos na dependência da mamona, não haveria plano. O óleo de mamona é mais caro (em comparação ao de soja) e não tem escala — diz o presidente da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Odacir Klein.

Com isso, a indústria se voltou para o Sul e para o Centro-Oeste, onde a cadeia produtiva da soja já estava pronta. A mistura obrigatória de 2% nos combustíveis fósseis começou em 2008 e, no mesmo ano, passou para 3%. O percentual subiu para 4% em 2009. Com a consolidação da indústria e do uso do biodiesel na matriz energética, o patamar de 5%, programado para começar a valer apenas ano passado, foi antecipado para 2010.

Combustível a partir de gordura animal e da soja

Uma das caçulas na produção de biodiesel no Rio Grande do Sul, a Biofuga tem origem que destoa da maior parte das companhias do setor, nascidas a partir de negócios existentes na área de soja. Ligada à indústria de couros, a empresa viu no combustível renovável a chance de entrar em nova atividade a partir de uma matéria-prima que tinha em abundância em casa, o sebo bovino. Enquanto no país 75% do biodiesel é produzido a partir de óleo de soja e somente 20% vem da gordura animal, na Biofuga a relação é meio a meio.

Criado em 1947, em Marau, no norte do Estado, o Grupo Fuga Couros começou como curtume. No final da década de 1980, entrou nos negócio de graxarias, adquirindo o que não era aproveitado pelos frigoríficos. Além do couro, comprava dos abatedouros ossos e vísceras usados na produção de farinha de carne e sebo bovino. O passo seguinte foi investir em frigoríficos. Hoje, são três unidades no Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e São Paulo, onde além do sebo — e da carne — obtém o couro, depois vendido beneficiado ou já acabado para indústria de calçados e de artefatos de moda.

Defasagem entre oferta e demanda

Com 108 milhões de litros de capacidade anual, a usina fica no município de Camargo, perto de Marau. Depois de um investimento de R$ 30 milhões, começou a produzir no ano passado. Até agora, foram colocados no mercado 55 milhões de litros. Embora entusiasmado com o potencial do negócio, o diretor comercial do Grupo Fuga, Luis Eduardo Fuga, pondera que o governo federal deve sinalizar que espaço será aberto ao biodiesel nos próximos anos para o setor se organizar. Hoje, avalia o empresário, há muita oferta para um mercado ainda restrito.

Há defasagem entre oferta e demanda. É preciso equalizar essa situação — aponta Luis Eduardo.

 

FONTE: http://zh.clicrbs.com.br/rs/ Caio Cigana

Publicação 04.11.2014 às 14:24
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